{"id":2992,"date":"2024-07-12T07:43:12","date_gmt":"2024-07-12T07:43:12","guid":{"rendered":"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/?p=2992"},"modified":"2024-07-16T08:03:46","modified_gmt":"2024-07-16T08:03:46","slug":"os-reformadores-removeram-os-livros-apocrifos-da-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/os-reformadores-removeram-os-livros-apocrifos-da-biblia\/","title":{"rendered":"Os Reformadores Removeram os Livros Ap\u00f3crifos da B\u00edblia?"},"content":{"rendered":"\n<p>O que s\u00e3o exatamente os \u201clivros ap\u00f3crifos\u201d? Devemos entender eles como parte da Escritura inspirada?<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira hist\u00f3ria dos ap\u00f3crifos \u2013 ou livros \u201cdeuterocan\u00f4nicos\u201d \u2013 \u00e9 mais complicada do que apenas dizer \u201cos cat\u00f3licos romanos os adicionaram \u00e0 B\u00edblia no s\u00e9culo XVI\u201d ou \u201cos protestantes os removeram da B\u00edblia no s\u00e9culo XVI\u201d. Pelo contr\u00e1rio, a rela\u00e7\u00e3o da igreja com os ap\u00f3crifos tem sido inconstante, com v\u00e1rios l\u00edderes eclesi\u00e1sticos ao longo da hist\u00f3ria, (1) aceitando-os completamente como Escritura inspirada; (2) valorizando-os como escritos edificantes, mas n\u00e3o inspirados; ou (3) deixando-os de lado como fontes secund\u00e1rias de interesse hist\u00f3rico ou espiritual. No s\u00e9culo XVI, a Igreja Cat\u00f3lica Romana decretou oficialmente que os ap\u00f3crifos eram Escritura inspirada (categoria 1), enquanto os protestantes tendiam a consider\u00e1-los como categoria 2 ou 3. Assim, o que uma vez foi uma gama de opini\u00f5es variadas sobre o\u00a0<em>status<\/em>\u00a0e autoridade dos ap\u00f3crifos ao longo da hist\u00f3ria da igreja, tornou-se fixo e inflex\u00edvel nos dogmas oficiais dos cat\u00f3licos romanos e igrejas protestantes depois do s\u00e9culo XVI.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Resumindo a hist\u00f3ria sobre o c\u00e2non do Antigo Testamento<\/h2>\n\n\n\n<p>A primeira coisa a se perceber \u00e9 que os livros conhecidos como \u201cap\u00f3crifos\u201d s\u00e3o adi\u00e7\u00f5es aos escritos do Antigo Testamento, n\u00e3o do Novo Testamento. Todas as tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do cristianismo desde o s\u00e9culo IV concordaram no conte\u00fado do c\u00e2non do Novo Testamento. Em segundo lugar, tanto o c\u00e2non do Antigo Testamento quanto o do Novo jamais foram oficialmente decretados por um conc\u00edlio ecum\u00eanico \u2013 isto \u00e9, um conc\u00edlio mundial considerado como imperativo por todas as igrejas. Apenas s\u00ednodos locais (conc\u00edlios regionais com autoridade localizada) produziram listas descritivas dos livros em seus Antigo e Novo Testamentos, \u00e0s vezes incluindo v\u00e1rios escritos ap\u00f3crifos. Em terceiro lugar, os reformadores protestantes nunca consideraram os ap\u00f3crifos como completamente in\u00fateis; antes, eles os consideravam como escritos meramente n\u00e3o inspirados, com origem na comunidade judaica. Eles fornecem informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas \u00fateis e cont\u00eam hist\u00f3rias inspiradoras. Logo, eles podem e devem ser lidos, mas n\u00e3o deveriam ser interpretados e pregados na igreja como Escritura inspirada e inerrante.<\/p>\n\n\n\n<p>Roger Beckwith resume de forma sucinta as posi\u00e7\u00f5es divergentes dos protestantes e cat\u00f3licos romanos na esteira da Reforma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Os reformadores seguiram o exemplo de Jer\u00f4nimo, e tra\u00e7avam uma distin\u00e7\u00e3o clara entre os ap\u00f3crifos das B\u00edblias grega e latina (que alguns deles mantiveram em uso apenas como uma leitura edificante) e os livros da B\u00edblia hebraica (que todos concordavam serem os \u00fanicos inspirados e imperativos). O Conc\u00edlio de Trento, por outro lado, promulgou em 1546 uma lista de livros inspirados da B\u00edblia hebraica e dos ap\u00f3crifos, e anatematizou aqueles que n\u00e3o os aceitassem. Os reformadores foram capazes de dar uma resposta igualmente ousada ao desafio de Trento, ecoando a afirma\u00e7\u00e3o de Agostinho de que o pr\u00f3prio Jesus endossou o c\u00e2non judaico, e apontando que este era o c\u00e2non da B\u00edblia hebraica, que n\u00e3o inclu\u00eda os ap\u00f3crifos.[1]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa breve cita\u00e7\u00e3o de Beckwith sinaliza uma hist\u00f3ria rica e interessante por tr\u00e1s das vis\u00f5es divergentes: Jer\u00f4nimo, B\u00edblias grega e latina, B\u00edblia hebraica e Agostinho. Claramente, ent\u00e3o, precisamos cavar mais um pouco para descobrir as raz\u00f5es hist\u00f3ricas pelas quais os protestantes relegaram os ap\u00f3crifos a uma estante diferente, separada dos escritos \u201cinspirados e imperativos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"display:flex;margin:20px 0;border:1px solid #ddd;align-items: center;\">\n    <div style=\"width:50%;padding:20px;border-right:1px solid #ddd\">\n        <a href=\"https:\/\/loja.chamada.com.br\/livros\/lendas-urbanas-da-historia-da-igreja\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/foto-luhi-3d.jpg\" alt=\"\" style=\"max-height:200px;display:block;margin:auto\"><\/a>\n    <\/div>\n    <div style=\"width:50%;padding:20px;\">\n        <h3 style=\"font-size:24px;margin:0\"><a href=\"https:\/\/loja.chamada.com.br\/livros\/lendas-urbanas-da-historia-da-igreja\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lendas Urbanas da Hist\u00f3ria da Igreja<a\/><\/h3>\n        <p style=\"font-size:16px;margin: 0 0 10px 0;\"><a href=\"https:\/\/loja.chamada.com.br\/livros\/lendas-urbanas-da-historia-da-igreja\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por Michael J. Svigel e John Adair<\/a><\/p>\n        <p>Uma obra que corrige muitas lendas urbanas que temos da hist\u00f3ria da igreja, desde a igreja primitiva at\u00e9 os tempos modernos.<\/p>\n    <\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os ap\u00f3crifos no per\u00edodo patr\u00edstico<\/h2>\n\n\n\n<p>No per\u00edodo patr\u00edstico (c. 100-500), como observa J. N. D. Kelly, o Antigo Testamento crist\u00e3o \u201csempre incluiu, embora com diferentes graus de reconhecimento, os chamados ap\u00f3crifos, ou livros deuterocan\u00f4nicos\u201d.[2] \u00c0 primeira vista isso parece confirmar a alega\u00e7\u00e3o de que os protestantes despejaram os ap\u00f3crifos de sua casa confort\u00e1vel no c\u00e2non. No entanto, Kelly explica que o motivo pelo qual os crist\u00e3os inclu\u00edram esses livros foi porque, depois do primeiro s\u00e9culo, os crist\u00e3os em todo o mundo eram, em sua maioria, gentios de fala grega que n\u00e3o conheciam o hebraico e, por isso, usavam como suas Escrituras do Antigo Testamento a tradu\u00e7\u00e3o grega conhecida como Septuaginta. A tradu\u00e7\u00e3o da Septuaginta inclu\u00eda n\u00e3o apenas os livros tidos como inspirados pelos judeus, mas tamb\u00e9m livros que os judeus consideravam \u201creligiosamente edificantes\u201d, embora n\u00e3o inspirados.[3] Esses s\u00e3o os que hoje chamamos de ap\u00f3crifos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"citacao2\">A tradu\u00e7\u00e3o da Septuaginta inclu\u00eda n\u00e3o apenas os livros tidos como inspirados pelos judeus, mas tamb\u00e9m livros que os judeus consideravam \u201creligiosamente edificantes\u201d, embora n\u00e3o inspirados.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Logo, quando os crist\u00e3os gentios receberam os escritos religiosos hebraicos na \u00fanica forma que podiam ler \u2013 a tradu\u00e7\u00e3o grega \u2013, tamb\u00e9m adquiriram aqueles textos que os judeus teriam considerado como fontes secund\u00e1rias. Contudo, alguns pais da igreja nesse per\u00edodo estavam bem-informados quanto \u00e0 hist\u00f3ria da tradu\u00e7\u00e3o da Septuaginta e sua rela\u00e7\u00e3o com o Antigo Testamento hebraico. Por volta do ano 170, o bispo Melit\u00e3o de Sardes (c. 110-180) escreveu a um companheiro crist\u00e3o, On\u00e9simo, a respeito do n\u00famero e ordem dos livros veterotestament\u00e1rios. Ele relatou que tinha viajado para Leste \u201ce chegou a um lugar onde essas coisas eram pregadas e praticadas\u201d e l\u00e1 ele \u201caprendeu corretamente os livros do Antigo Testamento\u201d.[4] O c\u00e2non relatado por Melit\u00e3o corresponde ao Antigo Testamento protestante em seu conte\u00fado, com uma exce\u00e7\u00e3o \u2013 ele n\u00e3o tem o livro de Ester.[5] O bem pesquisado c\u00e2non de Melit\u00e3o n\u00e3o inclu\u00eda os ap\u00f3crifos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo da vis\u00e3o patr\u00edstica dos ap\u00f3crifos \u00e9 encontrado nas&nbsp;<em>Aulas Catequ\u00e9ticas<\/em>&nbsp;de Cirilo de Jerusal\u00e9m (c. 313-386). Sua lista dos livros do Antigo Testamento corresponde \u00e0 dos protestantes, com a exce\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o de Ester e a inclus\u00e3o do ap\u00f3crifo Baruque, que \u00e9 inclu\u00eddo como parte de Jeremias, junto com Lamenta\u00e7\u00f5es. O resto dos ap\u00f3crifos n\u00e3o \u00e9 inclu\u00eddo.[6] Essas perspectivas representativas de Melit\u00e3o e Cirilo n\u00e3o s\u00e3o relatos minorit\u00e1rios entre os pais da igreja oriental. De forma similar, a vis\u00e3o entre pais proeminentes como Atan\u00e1sio de Alexandria (290-374) e Greg\u00f3rio de Nazianzo (330-390), \u201cera de que os livros deuterocan\u00f4nicos deveriam ser relegados a uma posi\u00e7\u00e3o subordinada, fora do c\u00e2non propriamente dito\u201d.[7]<\/p>\n\n\n\n<p>Parece, no entanto, que quanto mais longe as igrejas estivessem da terra santa e do c\u00e2non original preservado pelos judeus, mais prov\u00e1vel era que os l\u00edderes da igreja adotassem os ap\u00f3crifos de forma menos cr\u00edtica. As igrejas ocidentais, que eventualmente se juntaram naquilo que chamamos de Igreja Cat\u00f3lica Romana sob o papado, tendiam a considerar os ap\u00f3crifos como Escritura can\u00f4nica. Todavia, Jer\u00f4nimo (c. 347-420), que foi o respons\u00e1vel pela tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para o latim, conhecida como Vulgata, gastou um tempo consider\u00e1vel na terra santa para aprender hebraico, a servi\u00e7o de seus esfor\u00e7os de tradu\u00e7\u00e3o. Consequentemente, ele chegou \u00e0s mesmas conclus\u00f5es de muitos pais orientais, de que \u201cos livros que n\u00e3o est\u00e3o no c\u00e2non hebraico devem ser designados ap\u00f3crifos\u201d.[8]<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/loja.chamada.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"169\" src=\"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3787\" srcset=\"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1.jpg 1024w, https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1-300x50.jpg 300w, https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1-768x127.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os ap\u00f3crifos no per\u00edodo medieval<\/h2>\n\n\n\n<p>Contempor\u00e2neo de Jer\u00f4nimo, o grande Agostinho de Hipona (354-430) discordou de seu colega. Ele afirmou as origens miraculosas da tradu\u00e7\u00e3o grega da Septuaginta e aceitou os ap\u00f3crifos inclu\u00eddos naquela cole\u00e7\u00e3o. F. F. Bruce observa: \u201cA decis\u00e3o de Agostinho forneceu um precedente poderoso para a igreja ocidental, a partir de sua \u00e9poca at\u00e9 a Reforma e al\u00e9m\u201d.[9] Ao seguir Agostinho, a Igreja Cat\u00f3lica Romana muitas vezes desviou-se involuntariamente do c\u00e2non judaico original. Muitos cat\u00f3licos romanos s\u00e3o aparentemente ignorantes dessa hesita\u00e7\u00e3o de muitos pais primitivos a respeito dos ap\u00f3crifos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ao longo do per\u00edodo medieval, muitos na Igreja Cat\u00f3lica Romana consideravam os ap\u00f3crifos como Escritura imperativa, como o fizeram, com menos dogmatismo, as Igrejas Ortodoxas Orientais (embora o Leste e o Oeste diferissem sobre quais livros adicionais deveriam ser inclu\u00eddos). Essa aceita\u00e7\u00e3o geral cresceu sem o apoio de um conc\u00edlio ecum\u00eanico e sem testemunho anterior, difundido e consistente dos pais da igreja primitiva. Al\u00e9m disso, Westcott observa que \u201cuma sucess\u00e3o cont\u00ednua de pais mais eruditos no Oeste manteve a autoridade distinta do c\u00e2non hebraico [sem os ap\u00f3crifos] at\u00e9 o per\u00edodo da Reforma\u201d.[10] Aqueles que rejeitavam os ap\u00f3crifos inclu\u00edam o papa Greg\u00f3rio, o Grande (540-604), o Vener\u00e1vel Beda (673-735), Hugo de S\u00e3o Vitor (1096-1141), Guilherme de Ockham (1288-1348), o cardeal Tom\u00e1s Caetano (1469-1534) e v\u00e1rios outros que \u201crepetiam com aprova\u00e7\u00e3o a decis\u00e3o de Jer\u00f4nimo, e tra\u00e7avam uma linha clara entre os livros can\u00f4nicos e os ap\u00f3crifos\u201d.[11]<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os ap\u00f3crifos na Reforma e na Contrarreforma<\/h2>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o do c\u00e2non veterotestament\u00e1rio veio \u00e0 tona durante a Reforma. Como o assunto n\u00e3o estava completamente resolvido em qualquer sentido universal e obrigat\u00f3rio, v\u00e1rios l\u00edderes e estudiosos da igreja tinham, at\u00e9 aquele ponto, se posicionado ou com Agostinho, aceitando os escritos ap\u00f3crifos, ou com Jer\u00f4nimo, relegando-os a um&nbsp;<em>status<\/em>&nbsp;secund\u00e1rio. Martinho Lutero (1483-1546), juntamente com a maioria dos reformadores, tomou o partido de Jer\u00f4nimo por raz\u00f5es hist\u00f3ricas e teol\u00f3gicas,[12] embora a tradu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 da B\u00edblia por Lutero, bem como v\u00e1rias outras protestantes, inclu\u00edsse os livros em uma categoria separada, claramente intitulada \u201cap\u00f3crifos\u201d.[13]<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta direta \u00e0s reformas teol\u00f3gicas e pr\u00e1ticas feitas pelos protestantes, a \u201cContrarreforma\u201d da Igreja Cat\u00f3lica Romana, no Conc\u00edlio de Trento (1545-1563), estabeleceu os ap\u00f3crifos como parte do c\u00e2non do Antigo Testamento. O conc\u00edlio, de fato, decretou a&nbsp;<em>tradu\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;em latim como a fonte de \u00faltima inst\u00e2ncia em quest\u00f5es de fidelidade escritur\u00edstica \u2013 descontando o apelo aos textos hebraicos e gregos originais. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que Trento tenha ficado do lado de Agostinho ao inv\u00e9s de Jer\u00f4nimo na quest\u00e3o dos ap\u00f3crifos. Westcott observa: \u201cEsse decreto apressado e perempt\u00f3rio\u201d foi, \u201cem sua forma, diferente de qualquer cat\u00e1logo publicado anteriormente\u201d.[14]<\/p>\n\n\n\n<p>O decreto, de oito de abril de 1546, afirmou: \u201cSeguindo, ent\u00e3o, os exemplos dos pais ortodoxos, ele recebe e venera com um sentimento de piedade e rever\u00eancia todos os livros tanto do Antigo quanto do Novo Testamentos\u201d.[15] Logo, \u201cpara que ningu\u00e9m tenha d\u00favida sobre quais livros s\u00e3o recebidos por este conselho\u201d, o decreto lista os livros do Antigo e Novo Testamentos, incluindo Tobias, Judite, Eclesi\u00e1stico, Baruque e 1 e 2Macabeus. Ele conclui: \u201cSe algu\u00e9m n\u00e3o aceitar os livros citados como sagrados e can\u00f4nicos em sua totalidade e com todas as suas partes, da forma como j\u00e1 \u00e9 costume ler na igreja cat\u00f3lica e na maneira como est\u00e3o contidos na antiga edi\u00e7\u00e3o da Vulgata latina, e conscientemente e deliberadamente rejeitar as tradi\u00e7\u00f5es mencionadas, que ele seja an\u00e1tema\u201d. \u00c9 de se pensar se homens como Atan\u00e1sio, Jer\u00f4nimo, Greg\u00f3rio, o Grande e o Vener\u00e1vel Beda \u2013 que n\u00e3o recebiam os ap\u00f3crifos como \u201csagrados e can\u00f4nicos\u201d \u2013 teriam sido anatematizados se tivessem vivido durante o Conc\u00edlio de Trento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0 luz da verdadeira hist\u00f3ria dos ap\u00f3crifos, seria um exagero grosseiro dizer que os reformadores os removeram da B\u00edblia enquanto a Igreja Cat\u00f3lica Romana manteve as Escrituras originais que foram transmitidas desde o in\u00edcio. O papel dos ap\u00f3crifos na fam\u00edlia da Escritura can\u00f4nica sempre foi o de parentes distantes, na melhor das hip\u00f3teses, e convidados indesejados, na pior delas. Apesar de alguns os terem chamado de \u201cirm\u00e3os e irm\u00e3s\u201d, os ap\u00f3crifos n\u00e3o eram, de jeito nenhum, membros irrefut\u00e1veis da fam\u00edlia dos escritos inspirados. A maioria dos reformadores esclareceu esse fato ao coloc\u00e1-los, por assim dizer, na garagem, ao inv\u00e9s de trat\u00e1-los como irm\u00e3os iguais dos livros da B\u00edblia universalmente reconhecidos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"citacao2\">Embora a maior parte dos ap\u00f3crifos contenha&nbsp;<em>insights<\/em> \u00fateis, em alguns pontos eles podem ser usados para defender doutrinas que n\u00e3o encontram nenhum fundamento na Escritura can\u00f4nica.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em resposta, o Conc\u00edlio de Trento da Igreja Cat\u00f3lica Romana, em 1546, refor\u00e7ou sua t\u00eanue afirma\u00e7\u00e3o ao adotar os convidados da casa e inseri-los na fam\u00edlia da Escritura canonizada. Esse ato foi historicamente revolucion\u00e1rio, e desviou-se da recep\u00e7\u00e3o amena que os ap\u00f3crifos tinham desfrutado na igreja primitiva. Assim, em resposta a esse retorno, os elementos \u201cpuritanos\u201d mais rigorosos \u2013 e, eventualmente, os evang\u00e9licos protestantes na era moderna \u2013 expulsaram os ap\u00f3crifos at\u00e9 mesmo da categoria de \u201cn\u00e3o can\u00f4nicos, mas inspiracionais\u201d ou escritos \u201c\u00fateis\u201d. Essa abordagem extremamente negativa dos ap\u00f3crifos, em si, \u00e9 um afastamento radical da recep\u00e7\u00e3o geralmente positiva que eles recebiam mesmo entre aqueles que n\u00e3o os aceitavam como Sagrada Escritura.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Aplica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora a maior parte dos ap\u00f3crifos contenha&nbsp;<em>insights<\/em>&nbsp;\u00fateis sobre eventos hist\u00f3ricos, ou poesia inspiracional inofensiva, ou hist\u00f3rias de f\u00e9 e piedade ousadas, em alguns pontos eles podem ser usados para defender doutrinas que n\u00e3o encontram nenhum fundamento na Escritura can\u00f4nica. Por exemplo: os te\u00f3logos cat\u00f3licos romanos t\u00eam defendido as doutrinas do purgat\u00f3rio e das ora\u00e7\u00f5es pelos mortos a partir de 2Macabeus 12.46, onde diz: \u201cEra esse um bom e religioso pensamento. Eis por que ele pediu um sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio para que os mortos fossem livres de suas faltas\u201d.[16] \u00c9 claro que a teologia do purgat\u00f3rio inteira n\u00e3o poderia ser constru\u00edda a partir desse \u00fanico vers\u00edculo, mas ele certamente ajudou.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a Sagrada Escritura funciona como autoridade final em todas as quest\u00f5es de f\u00e9 e pr\u00e1tica, \u00e9 vital que nenhum \u201caspirante a B\u00edblia\u201d seja incorporado no c\u00e2non. \u00c9 por isso que os protestantes precisam entender n\u00e3o apenas o conte\u00fado propriamente dito do c\u00e2non do Antigo Testamento, mas tamb\u00e9m os motivos pelos quais os livros ap\u00f3crifos s\u00e3o considerados fontes secund\u00e1rias \u2013 bons para a leitura, mas n\u00e3o confi\u00e1veis para fundamentar a f\u00e9 e a pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h3>\n\n\n\n<ol>\n<li>Roger T. Beckwith,&nbsp;<em>The Old Testament Canon of the New Testament Church and Its Background in Early Judaism&nbsp;<\/em>(Eugene, OR: Wipf and Stock, 2008), p. 2.<\/li>\n\n\n\n<li>J. N. D. Kelly,&nbsp;<em>Early Christian Doctrines<\/em>, 5 ed. rev. (Nova York: HarperOne, 1978), p. 53.<\/li>\n\n\n\n<li>Ibid., p. 53.<\/li>\n\n\n\n<li>Essas palavras de Melit\u00e3o de Sardes chegam a n\u00f3s por meio de cita\u00e7\u00f5es de Eus\u00e9bio,&nbsp;<em>Church History<\/em>4.26.14 (NPNF 2.1.206).<\/li>\n\n\n\n<li>Veja F. F. Bruce,&nbsp;<em>The Canon of Scripture<\/em>&nbsp;(Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1988), p. 70-71.<\/li>\n\n\n\n<li>Cirilo de Jerusal\u00e9m,&nbsp;<em>Catechetical Lectures<\/em>&nbsp;4.35-36.<\/li>\n\n\n\n<li>Kelly,&nbsp;<em>Early Christian Doctrines<\/em>, p. 54-55.<\/li>\n\n\n\n<li>Carol A. Newsom, \u201cIntroduction to the Apocrypha\/Deuterocanonical Books\u201d,&nbsp;<em>The New Oxford Annotated Apocrypha: New Revised Standard Version<\/em>, 5 ed., ed. Michael D. Coogan et. al. (Oxford: Oxford University Press, 2018), p. 5.<\/li>\n\n\n\n<li>Bruce,&nbsp;<em>Canon of Scripture<\/em>, p. 97.<\/li>\n\n\n\n<li>Brooke Foss Westcott, \u201cCanon of Scripture, The\u201d,&nbsp;<em>Dr. William Smith\u2019s Dictionary of the Bible<\/em>, vol. 1, rev. e ed. H. B. Hackett e Ezra Abbot (Nova York: Hurd and Houghton, 1877), p. 363.<\/li>\n\n\n\n<li>Ibid.<\/li>\n\n\n\n<li>Euan Cameron,&nbsp;<em>The European Reformation<\/em>, 2 ed. (Oxford: Oxford University Press, 2012), p. 165.<\/li>\n\n\n\n<li>Bruce,&nbsp;<em>Canon of Scripture<\/em>, p. 102-104.<\/li>\n\n\n\n<li>Westcott,&nbsp;<em>Dictionary of the Bible<\/em>, p. 363.<\/li>\n\n\n\n<li>H. J. Schroeder,&nbsp;<em>The Canons and Decrees of the Council of Trent<\/em>&nbsp;(Rockford, IL: Tan Books and Publishers, 1978).<\/li>\n\n\n\n<li>Cita\u00e7\u00e3o extra\u00edda da B\u00edblia Ave Maria. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.bibliacatolica. com.br\/biblia-ave-maria\/ii-macabeus\/12\/. Acesso em: 6 mai. 2021.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p><em>Este artigo foi adaptado de&nbsp;<\/em><a href=\"https:\/\/loja.chamada.com.br\/livros\/lendas-urbanas-da-historia-da-igreja\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lendas Urbanas da Hist\u00f3ria da Igreja<\/a><em>, por Michael J. Svigel e John Adair.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que s\u00e3o exatamente os \u201clivros ap\u00f3crifos\u201d? Devemos entender eles como parte da Escritura inspirada? A verdadeira hist\u00f3ria dos ap\u00f3crifos \u2013 ou livros \u201cdeuterocan\u00f4nicos\u201d \u2013 \u00e9 mais complicada do que apenas dizer \u201cos cat\u00f3licos romanos os adicionaram \u00e0 B\u00edblia no s\u00e9culo XVI\u201d ou \u201cos protestantes os removeram da B\u00edblia no s\u00e9culo XVI\u201d. 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