{"id":2513,"date":"2022-07-20T06:11:00","date_gmt":"2022-07-20T06:11:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/?p=2513"},"modified":"2024-05-08T06:34:32","modified_gmt":"2024-05-08T06:34:32","slug":"atitude-de-servo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/atitude-de-servo\/","title":{"rendered":"Atitude de Servo"},"content":{"rendered":"\n<p>O servi\u00e7o a Deus implica estarmos dispostos a abrir m\u00e3o daquilo que pensamos ter direito. Como a nossa identidade em Cristo nos ajuda a agirmos como servos?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios anos tivemos no Brasil dois eventos que revelam muito da natureza humana. Em 2004, um juiz de direito entrou com um processo contra um porteiro de seu condom\u00ednio por este dirigir-se a ele como \u201cvoc\u00ea\u201d e \u201ccara\u201d e n\u00e3o como \u201csenhor\u201d e \u201cdoutor\u201d. O evento ocorreu ap\u00f3s uma discuss\u00e3o t\u00edpica de condom\u00ednio, tratando de um vazamento no apartamento do magistrado. Na \u00e9poca, ele pedia uma indeniza\u00e7\u00e3o por danos morais de cem sal\u00e1rios-m\u00ednimos. O mais surpreendente \u00e9 que na primeira inst\u00e2ncia o juiz teve ganho de causa<sup>[1]<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro evento, tamb\u00e9m revelador, um juiz foi parado em uma blitz dirigindo sem carteira um ve\u00edculo sem placa e sem documenta\u00e7\u00e3o. De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o, o ve\u00edculo teria de ser apreendido e o condutor multado. No entanto, o juiz dirigiu-se ao comandante da opera\u00e7\u00e3o e, explicando que era juiz, pediu para ser liberado. A agente que o havia autuado manteve sua posi\u00e7\u00e3o. Na discuss\u00e3o a seguir, o juiz lhe deu ordem de pris\u00e3o por desacato e a agente disse: \u201c\u00c9 juiz, mas n\u00e3o \u00e9 Deus\u201d. Mais tarde, a agente entrou com um processo contra o juiz por se sentir ofendida durante o exerc\u00edcio de sua fun\u00e7\u00e3o. No processo decorrente, a justi\u00e7a considerou que a v\u00edtima era o juiz e condenou a agente a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o de cinco mil reais. A agente foi eventualmente isentada de pagar a indeniza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s seis anos da condena\u00e7\u00e3o<sup>[2]<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ambos os casos, ainda que seja levada em considera\u00e7\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o e a dignidade da fun\u00e7\u00e3o dos magistrados, os dois n\u00e3o estavam no exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o, ou seja, a fun\u00e7\u00e3o e mesmo a pessoa dos magistrados n\u00e3o foi ofendida. \u00c9 bem poss\u00edvel que tanto o porteiro como a agente tenham sido debochados ou desrespeitosos no modo de falar, mas como ficou evidenciado em ambos os casos ap\u00f3s um longo processo jur\u00eddico, deboche n\u00e3o \u00e9 crime, ou seja: nenhuma lei foi quebrada. O que foi ferido foi a sensa\u00e7\u00e3o de identidade desses dois senhores. Para eles, pelo fato de serem ju\u00edzes devidamente concursados, sua identidade est\u00e1 vinculada \u00e0 sua pessoa e n\u00e3o \u00e0 fun\u00e7\u00e3o ou cargo que exerciam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"citacao2\">Jesus demonstra com clareza no evento do lava-p\u00e9s que, justamente por saber quem era e por saber de onde vinha, podia abrir m\u00e3o da gl\u00f3ria que lhe era legitimamente devida.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Temos visto nos \u00faltimos artigos (\u201c<a href=\"https:\/\/www.chamada.com.br\/mensagens\/um_reino_de_cabeca_pra_baixo.html\">Reino de cabe\u00e7a pra baixo<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/www.chamada.com.br\/mensagens\/a_quem_servimos.html\">A quem servimos<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/www.chamada.com.br\/mensagens\/como_servimos.html\">Como servimos<\/a>\u201d) v\u00e1rios aspectos sobre servi\u00e7o crist\u00e3o. Jesus demonstra com clareza no evento do lava-p\u00e9s que, justamente por saber quem era e por saber de onde vinha, podia abrir m\u00e3o da gl\u00f3ria que lhe era legitimamente devida. Como seguidores do Mestre, somos chamados a servir sem que isso fira em qualquer medida nossa identidade. Hoje gostaria de examinar com voc\u00eas a conhecida passagem de Filipenses 2.5-8:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cSeja a atitude de voc\u00eas a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, n\u00e3o considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente at\u00e9 a morte, e morte de cruz!\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A primeira observa\u00e7\u00e3o \u00e9 a exorta\u00e7\u00e3o de Paulo para que copiemos a mesma atitude de Cristo. A palavra para \u201catitude\u201d poderia ser traduzida por \u201cmente\u201d ou \u201csentimento\u201d. No entanto, o sentido do verso permitiria tamb\u00e9m traduzir por \u201cperspectiva\u201d ou \u201centendimento\u201d. Ter a mesma atitude de Jesus refere-se ao modo como encaramos a vida, nossas prioridades e mesmo como encaramos nosso papel nos v\u00e1rios relacionamentos em que estamos envolvidos. Paulo est\u00e1 nos chamando a copiar a pr\u00f3pria vida de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/loja.chamada.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"169\" src=\"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3787\" srcset=\"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1.jpg 1024w, https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1-300x50.jpg 300w, https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1-768x127.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>A partir do verso 6, entramos em um debate que dividiu a cristandade por anos. O dilema \u00e9 se Jesus, tendo se esvaziado, deixou de alguma forma sua natureza divina. A melhor forma de entender essa quest\u00e3o \u00e9 lembrar que h\u00e1 duas palavras que podem ser traduzidas como \u201cforma\u201d nessa passagem. A primeira \u00e9&nbsp;<em>morfe<\/em>&nbsp;e a outra \u00e9&nbsp;<em>esquema<\/em>.&nbsp;<em>Morfe<\/em>, raiz de palavras em portugu\u00eas como transformar, deve ser entendida como \u201cforma essencial\u201d. A palavra&nbsp;<em>esquema<\/em>, muito usada no portugu\u00eas, deve ser entendida como \u201ccondi\u00e7\u00e3o\u201d. A partir desse entendimento podemos afirmar que Jesus manteve sua ess\u00eancia divina, mas abriu m\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de gl\u00f3ria em que sempre existiu. Em resumo, ele n\u00e3o perdeu nada de sua natureza divina e habitou plenamente na condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Usando essa compreens\u00e3o, o restante do texto se torna claro e nos traz in\u00fameras aplica\u00e7\u00f5es como disc\u00edpulos de Cristo. No verso 6, lemos que, apesar de ser essencialmente divino, ele n\u00e3o considerou que precisava manter as condi\u00e7\u00f5es de gl\u00f3ria de sua divindade. Ou seja, a mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o afetava sua identidade. Como crist\u00e3os, nossa identidade n\u00e3o \u00e9 afetada por existir em condi\u00e7\u00f5es diferentes ou que aparentemente at\u00e9 neguem minha identidade. Por exemplo, se n\u00e3o sou tratado com a dignidade que todo filho de Deus merece, n\u00e3o preciso me defender ou contra-atacar. Condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o determinam quem somos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"citacao2\">Como crist\u00e3os, nossa identidade n\u00e3o \u00e9 afetada por existir em condi\u00e7\u00f5es diferentes ou que aparentemente at\u00e9 neguem minha identidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Acredito que, quanto mais refletirmos nesse exemplo de Cristo, mas livres seremos para servir, mesmo quando n\u00e3o reconhecidos. Nosso servi\u00e7o \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de nossa identidade, n\u00e3o da forma como sou ou serei tratado. Minha ora\u00e7\u00e3o \u00e9 que tanto eu como voc\u00ea, meu irm\u00e3o e minha irm\u00e3, tenhamos tanta clareza de quem somos em Cristo, que ao sermos tratados neste mundo como servos, nossa rea\u00e7\u00e3o seja graciosa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h3>\n\n\n\n<ol>\n<li>Kika Castro, \u201cO dia em que o STF negou pedido de um juiz que exigia ser chamado de \u2018doutor\u2019\u201d,\u00a0<em>Pragmatismo<\/em>, 29 jul. 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2016\/07\/o-dia-em-que-o-stf-negou-pedido-de-um-juiz-que-exigia-ser-chamado-de-doutor.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2016\/07\/o-dia-em-que-o-stf-negou-pedido-de-um-juiz-que-exigia-ser-chamado-de-doutor.html<\/a>.<\/li>\n\n\n\n<li>\u201cAgente que afirmou que \u2018juiz n\u00e3o era Deus\u2019 reverte senten\u00e7a seis anos ap\u00f3s condena\u00e7\u00e3o\u201d,\u00a0<em>Meia Hora de Not\u00edcias<\/em>, 23 set. 2020. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.meiahora.com.br\/geral\/2020\/09\/5994379-agente-que-afirmou-que--juiz-nao-era-deus--reverte-sentenca-seis-anos-apos-condenacao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.meiahora.com.br\/geral\/2020\/09\/5994379-agente-que-afirmou-que&#8211;juiz-nao-era-deus&#8211;reverte-sentenca-seis-anos-apos-condenacao.html<\/a><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O servi\u00e7o a Deus implica estarmos dispostos a abrir m\u00e3o daquilo que pensamos ter direito. Como a nossa identidade em Cristo nos ajuda a agirmos como servos? H\u00e1 v\u00e1rios anos tivemos no Brasil dois eventos que revelam muito da natureza humana. 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Tamb\u00e9m formado em psicologia com mestrado em educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3, Daniel foi diretor acad\u00eamico do Semin\u00e1rio B\u00edblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. \u00c9 autor, preletor e tem exercido um minist\u00e9rio na forma\u00e7\u00e3o e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula h\u00e1 mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. 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