{"id":1497,"date":"2013-08-27T08:07:00","date_gmt":"2013-08-27T08:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/?p=1497"},"modified":"2024-07-16T11:42:31","modified_gmt":"2024-07-16T11:42:31","slug":"a-heranca-calvinista-do-dispensacionalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/a-heranca-calvinista-do-dispensacionalismo\/","title":{"rendered":"A Heran\u00e7a Calvinista do Dispensacionalismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Talvez seja uma grande surpresa para alguns o fato de que o dispensacionalismo se desenvolveu e difundiu, durante os seus primeiros 100 anos, entre aqueles que se mantiveram na tradi\u00e7\u00e3o calvinista reformada.<\/p>\n\n\n\n<p>O moderno dispensacionalismo sistem\u00e1tico chega \u00e0 casa dos duzentos anos de express\u00e3o e desenvolvimento. Vivemos um momento em que o dispensacionalismo e alguns de seus conceitos t\u00eam sido propagados e adotados por grupos de diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Isso n\u00e3o \u00e9 surpresa, pois nossa \u00e9poca se caracteriza pela anti-sistematiza\u00e7\u00e3o e pelo ecletismo na \u00e1rea do pensamento. Talvez a grande surpresa para alguns seja o fato de que o dispensacionalismo se desenvolveu e difundiu, durante os seus primeiros 100 anos, entre aqueles que se mantiveram na tradi\u00e7\u00e3o calvinista reformada. Somente de 75 a 50 anos para c\u00e1 \u00e9 que o dispensacionalismo e algumas de suas convic\u00e7\u00f5es se propagaram, de modo significativo, fora da \u00f3rbita do calvinismo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Defini\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Antes de prosseguirmos, preciso estabelecer defini\u00e7\u00f5es funcionais do que quero dizer com calvinismo e dispensacionalismo. Em primeiro lugar, ao mencionar calvinismo me refiro, principalmente, ao sistema teol\u00f3gico relacionado \u00e0 doutrina da gra\u00e7a ou calvinismo soteriol\u00f3gico. Incluem-se nessa categoria o calvinismo estrito e o modificado (i.e, o calvinismo de cinco pontos e o de quatro pontos, respectivamente). Refiro-me \u00e0quele aspecto do calvinismo que trata da natureza deca\u00edda do ser humano e da gra\u00e7a eletiva de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, ao mencionar dispensacionalismo, fa\u00e7o alus\u00e3o ao sistema teol\u00f3gico desenvolvido por J. N. Darby que deu origem \u00e0 sua moderna \u00eanfase na interpreta\u00e7\u00e3o literal<em>coerente;<\/em>&nbsp;na distin\u00e7\u00e3o entre o plano de Deus para Israel e o Seu plano para a Igreja; normalmente, no Arrebatamento pr\u00e9-tribulacional da Igreja antes da septuag\u00e9sima semana de Daniel; no pr\u00e9-milenismo; e na multiforme proemin\u00eancia da gl\u00f3ria de Deus como o prop\u00f3sito final da hist\u00f3ria. Nisso se incluem alguns que, tendo adotado tal sistema, talvez parem, de repente, de crer no pr\u00e9-tribulacionismo. O foco da aten\u00e7\u00e3o deste artigo \u00e9 o pr\u00e9-milenismo dispensacionalista.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A l\u00f3gica teol\u00f3gica<\/h2>\n\n\n\n<p>Em concord\u00e2ncia com o \u00edmpeto calvinista de olhar teocentricamente a hist\u00f3ria, creio que o pr\u00e9-milenismo dispensacional prop\u00f5e o mais l\u00f3gico final escatol\u00f3gico dos decretos soberanos de Deus quanto \u00e0 salva\u00e7\u00e3o e \u00e0 hist\u00f3ria. Visto que os pr\u00e9-milenistas dispensacionais consideram as promessas divinas, tanto a da elei\u00e7\u00e3o de Israel quanto a da elei\u00e7\u00e3o da Igreja, como incondicionais e certas no seu futuro cumprimento, tal convic\u00e7\u00e3o \u00e9 l\u00f3gica e coerente com a B\u00edblia. Um te\u00f3logo aliancista diria que a elei\u00e7\u00e3o de Israel era condicional e tempor\u00e1ria. Muitos calvinistas s\u00e3o te\u00f3logos aliancistas que acreditam na incondicionalidade e irrevogabilidade da elei\u00e7\u00e3o dentro da Igreja. Estes entendem que o plano divino para Israel est\u00e1 condicionado \u00e0 escolha humana, ao passo que o plano de Deus para a salva\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da Igreja \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, um ato soberano dEle. N\u00e3o h\u00e1 simetria em tal l\u00f3gica. Enquanto isso, os pr\u00e9-milenistas dispensacionais entendem ambos os atos como uma express\u00e3o soberana do plano divino na hist\u00f3ria, que vem a ser uma aplica\u00e7\u00e3o coerentemente l\u00f3gica da vontade soberana de Deus nas quest\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Samuel H. Kellogg, pastor, mission\u00e1rio e educador presbiteriano, escreveu sobre a l\u00f3gica entre o calvinismo e o \u201cpr\u00e9-milenismo futurista moderno\u201d, que em sua \u00e9poca (1888) era essencialmente dispensacional. \u201cPor\u00e9m, em geral\u201d, comenta Kellogg, \u201cpode-se dizer acertadamente que as rela\u00e7\u00f5es&nbsp;<em>l\u00f3gicas<\/em>&nbsp;do pr\u00e9-milenismo o aproximam mais intimamente do sistema agostiniano do que de qualquer outro sistema teol\u00f3gico\u201d.[1] Sua utiliza\u00e7\u00e3o do termo \u201cagostiniano\u201d \u00e9 uma nomenclatura mais antiga para o termo \u201ccalvinista\u201d. Kellog salienta as diversas \u00e1reas nas quais o calvinismo e o pr\u00e9-milenismo s\u00e3o teologicamente un\u00e2nimes. \u201cO pr\u00e9-milenismo pressup\u00f5e uma antropologia fundamentalmente agostiniana. O calvinismo comum declara a completa impot\u00eancia do indiv\u00edduo quanto \u00e0 sua auto-regenera\u00e7\u00e3o e auto-reden\u00e7\u00e3o\u201d.[2] Ele prossegue: \u201c\u00e9 evidente que as pressuposi\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas, nas quais o pr\u00e9-milenismo parece se basear, devem trazer consigo uma&nbsp;<em>soteriologia<\/em>&nbsp;semelhante\u201d.[3] Kellogg fundamenta que \u201ca afinidade agostiniana da escatologia pr\u00e9-milenista fica mais evidente. N\u00e3o h\u00e1 nada mais acentuado do que a constante insist\u00eancia dos pr\u00e9-milenistas de que [&#8230;] a atual dispensa\u00e7\u00e3o \u00e9 estritamente eletiva\u201d.4 \u201cEm suma\u201d, conclui Kellogg, \u201cpodemos dizer que aquilo que os pr\u00e9-milenistas simplesmente afirmam ser o macrocosmo, os agostinianos em geral declaram ser o microcosmo\u201d.[5]<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que dispensacionalismo e calvinismo s\u00e3o sin\u00f4nimos. Eu simplesmente argumento que o dispensacionalismo \u00e9 compat\u00edvel com certos elementos do calvinismo, o que proporciona uma resposta parcial para a quest\u00e3o do dispensacionalismo ter se originado do \u00fatero reformado. C. Norman afirma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>H\u00e1, por certo, importantes elementos calvinistas do s\u00e9culo XVII no dispensacionalismo moderno, mas estes elementos foram combinados com \u00eanfases doutrin\u00e1rias provenientes de outras fontes, a fim de formar um sistema diferente que, em muitos aspectos, \u00e9 completamente estranho ao calvinismo cl\u00e1ssico.[6]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o dispensacionalismo de fato se desenvolveu dentro da comunidade reformada e, durante seus primeiros 100 anos, a maioria dos adeptos vinha de um ambiente calvinista. Kraus chega \u00e0 seguinte conclus\u00e3o: \u201cLevando tudo isso em conta, ainda \u00e9 preciso assinalar-se que as afinidades teol\u00f3gicas b\u00e1sicas do dispensacionalismo s\u00e3o calvinistas. A esmagadora maioria de homens envolvidos nos movimentos de confer\u00eancias b\u00edblicas e prof\u00e9ticas endossava declara\u00e7\u00f5es de f\u00e9 calvinistas\u201d.[7]<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Darby e o Movimento dos&nbsp;Irm\u00e3os<img decoding=\"async\" width=\"15\" height=\"15\" src=\"blob:https:\/\/sarves.com.br\/475242a1-3f21-4c0a-91df-0c09635afda5\"><\/h2>\n\n\n\n<p>O dispensacionalismo sistem\u00e1tico moderno desenvolveu-se nos idos de 1830 por J. N. Darby e aqueles que faziam parte do Movimento dos Irm\u00e3os. Praticamente todos esses homens procediam de igrejas cuja soteriologia era calvinista. \u201cEm se tratando de teologia\u201d, relata H. H. Rowdon, historiador do Movimento dos Irm\u00e3os, \u201cos primeiros Irm\u00e3os eram unanimemente calvinistas\u201d.[8] Isso ecoa nas palavras de um dos fundadores dos Irm\u00e3os, J. G. Bellet, que come\u00e7ava sua associa\u00e7\u00e3o com o movimento, quando seu irm\u00e3o, George, escrevendo a seu respeito, disse: \u201cpois suas convic\u00e7\u00f5es decididamente se tornaram mais calvinistas, e acredito que todos os amigos com quem se associara em Dublin, sem exce\u00e7\u00e3o, eram desta posi\u00e7\u00e3o\u201d.[9]<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote citacao2 is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O dispensacionalismo sistem\u00e1tico moderno desenvolveu-se nos idos de 1830 por J. N. Darby e aqueles que faziam parte do Movimento dos Irm\u00e3os.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Qual era a posi\u00e7\u00e3o de Darby nessa quest\u00e3o? John Goddard comenta que Darby \u201ccria na predestina\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos e rejeitava o esquema arminiano de que Deus n\u00e3o predestinou aqueles que de antem\u00e3o sabia que se conformariam \u00e0 imagem de Cristo\u201d.[10] Em sua \u201cLetter on Free-Will\u201d (i.e., \u201cCarta Sobre o Livre-Arb\u00edtrio\u201d), Darby deixa claro que rejeita esse conceito. \u201cSe Cristo veio salvar o perdido, o livre-arb\u00edtrio n\u00e3o tem mais raz\u00e3o de ser\u201d.[11] \u201cCreio que devamos nos apegar \u00e0 palavra\u201d, prossegue Darby, \u201cmas, filos\u00f3fica e moralmente falando, o livre-arb\u00edtrio \u00e9 uma teoria falsa e absurda. Livre-arb\u00edtrio \u00e9 um estado de pecado\u201d.[12] Em virtude de crer na escravid\u00e3o do pecado, Darby, logicamente, manteve sua cren\u00e7a na gra\u00e7a soberana como condi\u00e7\u00e3o para a salva\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O desdobramento desse princ\u00edpio da gra\u00e7a soberana \u00e9 tal que sem ele ningu\u00e9m seria salvo, pois n\u00e3o h\u00e1 quem entenda, n\u00e3o h\u00e1 quem busque a Deus, nenhuma pessoa que, por seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os, consiga um dia ter vida. O julgamento baseia-se nas obras; a salva\u00e7\u00e3o e a gl\u00f3ria s\u00e3o fruto da gra\u00e7a\u201d.[13]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outra evid\u00eancia do calvinismo de Darby \u00e9 que ele, pelo menos em duas ocasi\u00f5es, foi convidado por calvinistas n\u00e3o-dispensacionalistas para represent\u00e1-los na defesa do calvinismo. Um dos bi\u00f3grafos de Darby, W. G. Turner, registrou a sua defesa no debate ocorrido na Universidade de Oxford:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Foi numa data mais remota (acredito que em 1831) que F. W. Newman convidou o Sr. Darby para ir a Oxford: um momento memor\u00e1vel por sua refuta\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos argumentos levantados pelo Dr. E. Burton que rejeitavam as doutrinas da gra\u00e7a defendidas pelos reformadores e sustentadas n\u00e3o somente por Bucer, P. M\u00e1rtir e pelo bispo Jewell, mas tamb\u00e9m pelos artigos IX-XVIII da Igreja Anglicana.[14]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Noutra ocasi\u00e3o, Darby foi convidado para ir \u00e0 cidade de Calvino, Genebra, na Su\u00ed\u00e7a, a fim de fazer uma defesa do calvinismo. Turner declara que \u201cele refutou o \u2018perfeccionismo\u2019 de John Wesley, para alegria da Igreja Livre da Su\u00ed\u00e7a\u201d.[15] Darby foi condecorado pelos l\u00edderes de Genebra com a medalha de honra ao m\u00e9rito.[16]<\/p>\n\n\n\n<p>E ainda, quando algumas doutrinas reformadas foram criticadas dentro da igreja a que outrora servira, \u201cDarby assinalou sua aprova\u00e7\u00e3o do artigo XVII\u201d, que trata da elei\u00e7\u00e3o e predestina\u00e7\u00e3o, \u201cincluso nos trinta e nove artigos da declara\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria da Igreja Anglicana\u201d.[17] Darby afirmou:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>De minha parte, em s\u00e3 consci\u00eancia, reputo como s\u00e1bio o artigo XVII. Talvez possa dizer que se trata da mais s\u00e1bia e condensada declara\u00e7\u00e3o humana, que eu conhe\u00e7a, sobre o conte\u00fado em quest\u00e3o. Estou plenamente satisfeito em interpret\u00e1-lo em seu sentido literal e gramatical. Creio que a predestina\u00e7\u00e3o para a vida \u00e9 o prop\u00f3sito eterno de Deus, por meio do qual, antes que os fundamentos do mundo fossem estabelecidos, Ele decretou firmemente salvar dentre a ra\u00e7a humana aqueles que escolhera em Cristo, pelo Seu conselho que nos \u00e9 secreto,&nbsp;<em>e apresent\u00e1-los, por interm\u00e9dio de Cristo, como vasos de honra, para a eterna salva\u00e7\u00e3o<\/em>.[18]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Scofield, Chafer e o Dallas Theological Seminary<img decoding=\"async\" width=\"15\" height=\"15\" src=\"blob:https:\/\/sarves.com.br\/14adc919-4291-4f7a-8c5d-a4cc94a30365\"><\/h2>\n\n\n\n<p>C. I. Scofield (1843-1921), Lewis Sperry Chafer (1871-1952) e o Dallas Theological Seminary (fundado em 1924) foram importantes ve\u00edculos na propaga\u00e7\u00e3o do dispensacionalismo nos Estados Unidos e no mundo. Tanto Scofield quanto Chafer eram pastores ordenados pela Igreja Presbiteriana. A&nbsp;<em>B\u00edblia de Scofield com Refer\u00eancias<\/em>&nbsp;\u00e9 considerada por muitos como a ferramenta mais eficaz na dissemina\u00e7\u00e3o do dispensacionalismo nos Estados Unidos.[19] Scofield se converteu a Cristo na meia-idade e, primeiramente, foi discipulado por James H. Brookes em Saint Louis. Foi ordenado ao minist\u00e9rio da Primeira Igreja Congregacional de Dallas em 1882 e transferiu suas credenciais ministeriais para a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos em 1908.[20] Conseq\u00fcentemente, seu minist\u00e9rio se desenvolveu num contexto calvinista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote citacao2 is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A&nbsp;<em>B\u00edblia de Scofield com Refer\u00eancias<\/em>&nbsp;\u00e9 considerada por muitos como a ferramenta mais eficaz na dissemina\u00e7\u00e3o do dispensacionalismo nos Estados Unidos.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Scofield foi a maior influ\u00eancia no desenvolvimento teol\u00f3gico de Chafer. John Hannah menciona que \u201c\u00e9 imposs\u00edvel entender Chafer sem que se perceba a profunda influ\u00eancia de Scofield\u201d.[21] Na realidade, \u201cChafer sempre comparava esse relacionamento ao de pai e filho\u201d.[22] Tal relacionamento originou-se do aprendizado de Chafer sob a tutela de Scofield na Confer\u00eancia de Northfield e da transforma\u00e7\u00e3o de vida incentivada pelos estudos de Scofield \u00e0 frente da Primeira Igreja Congregacional de Dallas nos prim\u00f3rdios de 1900. Scofield disse a Chafer que seus dons relacionavam-se mais com a \u00e1rea de ensino do que com a de evangelismo na qual este tinha atuado. Em seguida, \u201cos dois oraram juntos e Chafer dedicou a sua vida inteira ao estudo e ao ensino da B\u00edblia\u201d.[23]<\/p>\n\n\n\n<p>Scofield e Chafer foram dois dos maiores dispensacionalistas americanos e ambos desenvolveram sua teologia a partir de um contexto reformado. Scofield \u00e9 conhecido por sua B\u00edblia de Estudo e Chafer pela publica\u00e7\u00e3o de sua Teologia Sistem\u00e1tica e pelo Dallas Theological Seminary. Jeffrey Richards descreve as caracter\u00edsticas teol\u00f3gicas de Chafer mencionando que \u201ct\u00eam muito em comum com toda a tradi\u00e7\u00e3o reformada. Com exce\u00e7\u00e3o da escatologia, Chafer \u00e9 teologicamente parecido com os expoentes da teologia de Princeton, tais como Warfield, Hodge e Machen. Reconhecia, de modo semelhante, doutrinas como, por exemplo, a soberania de Deus [&#8230;] a deprava\u00e7\u00e3o total da humanidade, a elei\u00e7\u00e3o, a gra\u00e7a irresist\u00edvel e a perseveran\u00e7a dos santos\u201d.[24] C. Fred Lincoln descreve a obra de Chafer intitulada&nbsp;<em>Systematic Theology<\/em>&nbsp;(publicada em portugu\u00eas pela Editora Hagnos), como \u201ccompleta, calvinista, pr\u00e9-milenista e dispensacionalista\u201d.[25]<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a sua funda\u00e7\u00e3o em 1924 com o nome&nbsp;The Evangelical Theological College&nbsp;(mudado em 1936 para&nbsp;Dallas Theological Seminary), o Semin\u00e1rio de Dallas causou um impacto de propor\u00e7\u00f5es globais a favor do dispensacionalismo. Seu principal fundador foi Chafer. Entretanto, William Pettingil e W. H. Griffith-Thomas tamb\u00e9m desempenharam um papel importante na sua funda\u00e7\u00e3o. Pettingil, \u00e0 semelhan\u00e7a de Chafer, era presbiteriano. Griffith-Thomas, um anglicano, escreveu um dos melhores coment\u00e1rios sobre Os Trinta e Nove Artigos (de F\u00e9) da Igreja Anglicana,[26] que at\u00e9 hoje s\u00e3o largamente utilizados por anglicanos e episcopais conservadores. Os Trinta e Nove Artigos s\u00e3o fortemente calvinistas. Esses dois homens eram claramente calvinistas. O Semin\u00e1rio de Dallas, especialmente antes da Segunda Guerra Mundial, se considerava calvinista. Certa feita, num folheto de propaganda, Chafer caracterizou a escola como \u201cplenamente de acordo com a f\u00e9 reformada e sua teologia \u00e9 estritamente calvinista\u201d.[27] Numa carta escrita a Allan MacRae, do Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico de Westminster, Chafer declarou: \u201cVoc\u00ea provavelmente sabe que somos calvinistas declarados em nossa teologia\u201d.[28] \u201cEm 1925, quando se referia ao corpo docente do Semin\u00e1rio, Chafer fez uma observa\u00e7\u00e3o de que quase todos eram procedentes de igrejas presbiterianas das regi\u00f5es Sul e Norte do pa\u00eds\u201d.[29] Al\u00e9m disso, escrevendo a um pastor presbiteriano, Chafer afirmou: \u201cEu me alegro em afirmar que n\u00e3o existe institui\u00e7\u00e3o, que eu saiba, mais calvinista como um todo, nem mais ajustada, por inteiro, a esse sistema de doutrina, defendido pela Igreja Presbiteriana\u201d.[30]<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/loja.chamada.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"169\" src=\"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3787\" srcset=\"https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1.jpg 1024w, https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1-300x50.jpg 300w, https:\/\/sarves.com.br\/chamada\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/loja-banner-1024x169-1-768x127.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Visto que muitos dos primeiros formandos de Dallas ingressaram no minist\u00e9rio presbiteriano, iniciou-se uma rea\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00e9-milenismo dispensacionalista nos idos de 1930. N\u00e3o era uma quest\u00e3o de serem ou n\u00e3o calvinistas na sua soteriologia, mas uma quest\u00e3o referente \u00e0 sua escatologia. No final da d\u00e9cada de 1930, \u201co Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico de Dallas, embora professasse firmemente ser uma institui\u00e7\u00e3o presbiteriana, foi deixado fora do movimento conservador presbiteriano dissidente\u201d.[31] Em 1944, os presbiterianos do Sul dos EUA emitiram o relat\u00f3rio de um comit\u00ea de investiga\u00e7\u00e3o da compatibilidade do dispensacionalismo com a&nbsp;<em>Confiss\u00e3o de F\u00e9 de Westminster<\/em>. O comit\u00ea decretou que o dispensacionalismo n\u00e3o se harmonizava com a confiss\u00e3o de f\u00e9 da igreja. Esse \u201crelat\u00f3rio de 1944 foi o golpe que acabou com todas as espectativas futuras do pr\u00e9-milenismo dispensacionalista dentro do presbiterianismo do Sul do pa\u00eds\u201d.[32] Essa delibera\u00e7\u00e3o fez com que muitos ex-alunos do Semin\u00e1rio de Dallas deixassem seus minist\u00e9rios em denomina\u00e7\u00f5es de f\u00e9 reformada e ingressassem no movimento de Igrejas B\u00edblicas independentes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um aumento na aceita\u00e7\u00e3o do dispensacionalismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Ainda que o dispensacionalismo tenha tido, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1880, uma modesta penetra\u00e7\u00e3o entre os batistas, atrav\u00e9s de representantes como, por exemplo, J. R. Graves,[33] um calvinista convicto, estes foram repelidos pelos n\u00e3o-calvinistas at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1920, quando elementos da teologia dispensacionalista come\u00e7aram a ser adotados por alguns pentecostais numa tentativa de rebater a crescente amea\u00e7a do liberalismo. Kraus explica:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Alguns professores declararam explicitamente que o pr\u00e9-milenismo era um escudo de defesa contra a teologia racionalista. Assim, n\u00e3o \u00e9 de se admirar a descoberta de que rudimentos teol\u00f3gicos normativos do dispensacionalismo tenham concorrido diretamente contra a \u00eanfase da \u201cNova Teologia\u201d em desenvolvimento.[34]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>At\u00e9 esse ponto na hist\u00f3ria, aqueles que eram de tradi\u00e7\u00e3o arminiana e wesleyana estavam mais interessados nas quest\u00f5es relativas \u00e0 santifica\u00e7\u00e3o pessoal no presente, do que \u00e0 aten\u00e7\u00e3o calvinista em explicar a obra soberana de Deus no decurso da hist\u00f3ria. Contudo, o surgimento da controv\u00e9rsia fundamentalista-liberal na d\u00e9cada de 1920 despertou um interesse pela defesa da B\u00edblia contra os ataques anti-sobrenaturalistas dos cr\u00edticos liberais, que ultrapassava o \u00e2mbito do calvinismo. O dispensacionalismo foi visto como uma resposta b\u00edblica e conservadora ao liberalismo, n\u00e3o apenas no meio fundamentalista, mas tamb\u00e9m, e cada vez mais, entre os pentecostais e outros grupos. Timothy Weber faz a seguinte observa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Em tempo, o dispensacionalismo tamb\u00e9m teve seus adeptos dentro da tradi\u00e7\u00e3o wesleyana. Outros grupos radicais da denomina\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>Holiness<\/em>&nbsp;repercutiram as predi\u00e7\u00f5es dispensacionalistas de decl\u00ednio da ortodoxia e da consagra\u00e7\u00e3o nas igrejas; e os pentecostais descobriram no dispensacionalismo uma ocasi\u00e3o para o derramamento do Esp\u00edrito num dia de \u201cchuva ser\u00f4dia\u201d antes da Segunda Vinda.[35]<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O desenvolvimento do dispensacionalismo no p\u00f3s-guerra<\/h2>\n\n\n\n<p>Os movimentos fundamentalista\/evang\u00e9lico e pentecostal\/carism\u00e1tico se alastraram rapidamente pelos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial e o dispensacionalismo, por estar relacionado com tais movimentos, tamb\u00e9m cresceu rapidamente. Muitas pessoas nascidas durante o \u201cbaby-boom\u201d do p\u00f3s-guerra cresceram no ambiente de igrejas pentecostais e carism\u00e1ticas tendo o dispensacionalismo e o Arrebatamento pr\u00e9-tribulacional como parte de sua estrutura doutrin\u00e1ria. Portanto, nem lhes passava pela cabe\u00e7a que o dispensacionalismo n\u00e3o era inerente \u00e0s caracter\u00edsticas espec\u00edficas de sua teologia da restaura\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, quando o fundamentalismo n\u00e3o-calvinista se expandiu depois da Segunda Guerra, especialmente nos c\u00edrculos batistas independentes, houve uma ruptura ainda maior dos distintivos dispensacionalistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas ra\u00edzes calvinistas.<\/p>\n\n\n\n<p>De outro lado, o expurgo do dispensacionalismo por parte do cristianismo reformado, iniciado no final da d\u00e9cada de 1930, foi plenamente conclu\u00eddo. Um exemplo t\u00edpico dessa polariza\u00e7\u00e3o verifica-se em livros como&nbsp;<em>Wrongly Dividing The Word Of Truth: A Critique of Dispensationalism<\/em>&nbsp;(\u201cManejando Mal a Palavra da Verdade: Uma Cr\u00edtica ao Dispensacionalismo\u201d) de John Gerstner.[36] Enquanto, por um lado, admite que \u201co estranho no dispensacionalismo \u00e9 que parece ter tido seus mais fortes defensores em igrejas calvinistas\u201d,[37] Gerstner se op\u00f5e t\u00e3o fortemente ao dispensacionalismo que se tornou cego para perceber a verdadeira natureza calvinista de tal teologia teoc\u00eantrica. Gerstner alega que ele e outros te\u00f3logos reformados levantaram \u201cum forte questionamento sobre o dispensacionalismo e suas reivindica\u00e7\u00f5es calvinistas\u201d.[38] Parece que pelo fato de o dispensacionalismo ter se originado numa tradi\u00e7\u00e3o reformada, como um rival da teologia aliancista, alguns querem dizer que n\u00e3o pode logicamente ser calvinista. Esse \u00e9 o argumento de Gerstner. Entretanto, apesar do seu sofisma nessa quest\u00e3o,[39] Gerstner n\u00e3o pode anular o fato hist\u00f3rico de que o dispensacionalismo foi gerado em meio \u00e0 mentalidade b\u00edblica de uma teologia nitidamente teoc\u00eantrica, por aqueles que defendiam firmemente o calvinismo soteriol\u00f3gico. A prov\u00e1vel raz\u00e3o pela qual a comunidade reformada tomou a dianteira na cr\u00edtica da teologia dispensacionalista se encontra no fato de que o dispensacionalismo nasceu num contexto reformado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente pelo fato de que o dispensacionalismo penetrou em quase todas as formas de protestantismo, que muitos, hoje em dia, talvez fiquem surpresos em conhecerem de onde procede a sua heran\u00e7a. Em nossos dias de irracionalismo p\u00f3s-moderno em que a virtude se constitui em N\u00c3O verificar a coer\u00eancia dos pontos da teologia de uma pessoa, precisamos nos lembrar que a teologia da B\u00edblia \u00e9 uma pe\u00e7a de roupa elaborada sem costura. Tudo se sustenta em conjunto. Se algu\u00e9m come\u00e7a a repuxar ou esgar\u00e7ar um \u00fanico fio de linha, o tecido todo corre o risco de se desmanchar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote citacao2 is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O dispensacionalismo \u00e9 mais bem entendido como um sistema teol\u00f3gico que compreende Deus como o Soberano Governante dos c\u00e9us e da terra e a hist\u00f3ria como uma li\u00e7\u00e3o na concretiza\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria de Deus exibida tanto no c\u00e9u quanto na terra.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O dispensacionalismo \u00e9 mais bem entendido como um sistema teol\u00f3gico que compreende Deus como o Soberano Governante dos c\u00e9us e da terra; o homem como um vice-regente rebelde (junto com alguns anjos); Jesus Cristo como o Her\u00f3i da hist\u00f3ria que salva algumas pessoas por Sua Gra\u00e7a; a hist\u00f3ria como uma li\u00e7\u00e3o na concretiza\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria de Deus exibida tanto no c\u00e9u quanto na terra. O dispensacionalismo \u00e9 uma teologia que, segundo creio, procede exatamente do estudo b\u00edblico e que reconhece Deus como Deus.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez seja uma grande surpresa para alguns o fato de que o dispensacionalismo se desenvolveu e difundiu, durante os seus primeiros 100 anos, entre aqueles que se mantiveram na tradi\u00e7\u00e3o calvinista reformada. O moderno dispensacionalismo sistem\u00e1tico chega \u00e0 casa dos duzentos anos de express\u00e3o e desenvolvimento. 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